Os Mutantes

Os divinos comediantes

Os Mutantes

Classificação: AAA+

Formação clássica:

  • Arnaldo Baptista (voz, baixo e teclados)
  • Rita Lee (voz e instrumentos)
  • Sérgio Dias (voz e guitarras)
  • Liminha (baixo e vocais)
  • Dinho Leme (bateria e percussão)

Comentário:

A banda brasileira de rock mais importante de todos os tempos. A afirmação é incontestável, mas será que por si só justifica a classificação acima? Afinal, a importância dada aos Mutantes é apenas histórica ou também musical?

Eu diria que sim, do contrário dificilmente se falaria e, principalmente, se ouviria tanto o grupo ainda hoje. Se não tivessem criado uma obra consistente e inovadora, talvez seriam lembrados somente como mais uma extravagância tropicalista.

Extravagantes, de fato, eles eram, da sonoridade ao visual. Em alguns momentos até demais, é preciso dizer. Os pontos altos dos Mutantes são justamente aqueles em que a genialidade de Arnaldo Baptista se escora na sensibilidade pop à flor da pele de Rita Lee e no virtuosismo de Sérgio Dias.

Foi só quando se separaram que a participação de cada um na força criativa da banda apareceu: Rita ficou com o sucesso sem brilho, Arnaldo com as loucuras beirando a maestria e Sérgio com a inócua competência musical.

Por isso, quando falo em Mutantes, me refiro à banda que esteve ativa entre 1965 e 1973. Após a saída de Rita Lee, a banda acabou engolida pelas drogas e, pior, pelo rock progressivo.

Discografia e classificação:

  • Os Mutantes (1968) - AAA+
  • Mutantes (1969) - AA
  • A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970) - AAA
  • Jardim Elétrico (1971) - AAA
  • Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972) - A
  • Tudo Foi Feito Pelo Sol (1974) - CC
  • O A e o Z (lançado em 1992, gravado em 1973) - B
  • Tecnicolor (lançado em 2000, gravado em 1970) - A

Invisível DJ

Canto do cisne (ou da mosca) desafinado

ira invisívelClassificação: CCC

Ano de lançamento: 2007

Melhor música: Feito Gente

Faixas:

  1. Invisível DJ
  2. Sem Saber Pra Onde Ir
  3. Eu Vou Tentar
  4. Mariana Foi Pro Mar
  5. Não Basta O Perdão
  6. Culto De Amor
  7. Feito Gente
  8. Tudo De Mim
  9. No Universo Dos Seus Olhos
  10. A Saga
  11. O Candidato
  12. La Luna Llena

Comentário:

Após o sucesso do Acústico MTV, o Ira! resolveu voltar aos estúdios disposto a manter as vendas em alta, nem que para isso fosse preciso vender a alma ao diabo, que aqui atende pelo nome do produtor Rick Bonadio, responsável pelas horrendas bandas emo. Eles pagaram o preço bem rápido, com o fim da banda agonizando em praça pública, em horário nobre no Fantástico.

Voltando ao disco, em Invisível DJ o Ira! não soa muito diferente de grupos como CPM 22 e Fresno, a começar da colaboração de Rodrigo Koala, do Hateen (quem?), em Eu Vou Tentar. Fosse esse o pior momento do disco, tudo bem. Mas, pelo contrário, a canção é um dos raros acertos do grupo, ao lado do cover de Feito Gente, de Walter Franco.

A mão pesada de Bonadio torna tudo meio pasteurizado, mesmo nas faixas mais pesadas, onde insiste em surgir um tecladinho retardado. Mas, verdade seja dita, nenhum produtor conseguiria dar um jeito no material pobre composto pela banda.

Mas quem sou eu para criticar se o disco ganhou elogios de ninguém menos que Ed O'Brien, guitarrista do Radiohead? Se eu fosse o Scandurra, enviaria para ele uma cópia do Psicoacústica o quanto antes...

Faixa a faixa:

Invisível DJ: Scandurra não vai muito longe com esse riff, que mais parece criado por um invisível guitarrista. Nota 7

Sem Saber Pra Onde Ir: Nem precisava dizer... Nota 6

Eu Vou Tentar: Rick Bonadio sabe como produzir bandas emo. Não por acaso nesta composição ele acerta a mão. Nota 8

Mariana Foi Pro Mar: Seria muito ranzinza da minha parte não achar essa canção no mínimo simpatica. Nota 8

Não Basta o Perdão: O riff até é razoável, mas que letrinha mais emo... Nota 7

Culto De Amor: Mais uma cançãozinha pop sem muita expressão. Cadê a inspiração, minha gente? Nota 7

Feito Gente: Tivesse surgido em discos anteriores do Ira!, essa versão para a música de Walter Franco teria saído mais suja e adequada à estética da banda. Mas a produção careta de Bonadio mais uma vez estraga tudo. Nota 8

Tudo De Mim: Balada correta, mas sem sal, bem ao estilo do disco. Nota 7

No Universo Dos Seus Olhos: Passaria despercebida em qualquer disco do Ira! E aqui não é diferente. Nota 7

A Saga: Uma boa surpresa em meio à mediocridade geral. Nota 8

O Candidato: Letra de protesto? Pelamordedeus... Nota 5

La Luna Llena: Fora o espanhol de CCAA do Nasi, a faixa se salva. Será que o guitarrista do Radiohead percebeu a diferença no idioma? Nota 7

Acústico MTV

Mais um caça níqueis. Desta vez não tão honesto...

ira acústico

Classificação: BBB

Ano de lançamento: 2004

Melhor música: Rubro Zorro

Faixas:

  1. Pra Ficar Comigo (Train in Vain)
  2. O Girassol
  3. Flerte Fatal
  4. Dias de Luta
  5. Tarde Vazia
  6. 15 Anos
  7. Rubro Zorro
  8. Flores em Você
  9. Eu Quero Sempre Mais
  10. Poço de Sensibilidade
  11. Por Amor
  12. Ciganos
  13. Boneca de Cera
  14. Tanto Quanto Eu
  15. Envelheço na Cidade
  16. Núcleo Base
  17. Saída

Comentário:

Os acústicos deveriam ter deixado de existir em 1993. Depois, do Nirvana, estava óbvio que ninguém mais conseguiria fazer nada que chegasse perto de arte nesse formato "um banquinho, um violão". Mas não era exatamente com arte que o Ira! estava preocupado, não é mesmo?

Seria simplesmente impossível para a banda fazer um disco ruim com tantas canções boas, apesar do esforço para isso em alguns momentos. Ouvir a voz de Pitty em Eu Quero Sempre Mais chega a ser constrangedor. Ela só não se sai pior que Samuel Rosa, que entoou Tarde Vazia como se estivesse cantando "É uma partida de futebol".

É preciso reconhecer que o Ira! não escolheu um repertório óbvio e chega a surpreender ao incluir Tanto Como Eu e O Girassol. Mas o grande momento do disco é Rubro Zorro. A porrada que abre o espetacular Psicoacústica mantém o vigor em formato acústico. Eles bem que podiam tocar o disco inteiro nesse Acústico e mandar a MTV à merda...

Entre seus rins

Está mais para pé no saco...

ira rins Classificação: B

Ano de lançamento: 2001

Melhor música: O bom e velho rock'n' roll

Faixas:

  1. O bom e velho rock'n' roll (Edgard Scandurra)
  2. Entre seus rins (Edgard Scandurra)
  3. Milhas e milhas (Gaspa - Nasi - Edgard Scandurra - Mauro Motoki)
  4. Naftalina (César Maurício - Gerson Barral - Ronaldo Gino)
  5. Superficial (como um espinho) (Edgard Scandurra)
  6. Para ser humano (Edgard Scandurra)
  7. Homem de neanderthal (Frank Jorge)
  8. Um homem só (Edgard Scandurra)
  9. Mistério (Alvin L - Ciro Pessoa - Gaspa - Marsicano)
  10. Pecado (Arnaldo Antunes - Edgard Scandurra)
  11. O tempo (Gaspa - Nasi)
  12. A vida por um fio (Edgard Scandurra)

Comentário:

Scandurra está de volta! Deveria ter sido este o slogan de lançamento deste álbum. Depois de deixar boa parte das composições para os companheiros de banda nos últimos discos, o guitarrista resolveu chamar de volta para si a responsabilidade criativa neste disco. Sozinho ou em parceria, ele assina oito das doze faixas de Entre Seus Rins.

Mas o que deveria ser uma boa notícia acaba se tornando um fiasco. Com exceção da faixa de abertura e da final, Scandurra se deixa escorregar nas várias cascas de banana colocadas à frente dele. Algumas letras chegam a ser embaraçosas de tão ruins, e mesmo as boas canções não chegam a ser inesquecíveis a ponto de se querer ouvir sucessivamente, como os grandes clássicos do Ira!. Este disco não nega: a banda estava definitivamente domesticada pela geração MTV...

Faixa a faixa:

O bom e velho rock'n' roll: Se Scandurra ainda tivesse inspiração paa escrever mais uma meia dúzia de canções tão boas em um único disco... Nota 9

Entre seus rins: Essa coisa de ficar entre os rins não é nem um pouco convencional. Então, por que raios escolher essa como a música de trabalho do disco? Nota 7

Milhas e milhas: Um bom rock que mantém a linha promissora do disco. Nota 8

Naftalina: Parece ter sido escrita por um garoto de 15 anos. E o pior: é um cover. Scandurra tinha mesmo razão: vivendo e não aprendendo... Nota 5

Superficial (como um espinho): Mais um momento constrangedor. Será que eles perderam a noção de ridículo? Nota 4

Para ser humano: Com quatro minutos a menos, seria ótima, mas se arrasta até o limite do insuportável. Nota 4

Homem de neanderthal: O quê? Mais um gaúcho regravado pelo Ira!? Barbaridade... Nota 5

Um homem só: Enfim, um pouco de dignidade... Nota 7

Mistério: Também contribui para melhorar a média. Nota 8

Pecado: Faz uma boa dupla com Perigo, outra parceria da dupla, presente em Música Calma Para Pesoas Nervosas. Nota 8

O tempo: Nasi concentrou seus parcos esforços criativos nesta canção. A estratégia deu certo. Nota 9

A vida por um fio: Bela pegada, enfim um vestígio do Scandurra dos bons tempos... Nota 9

MTV Ao Vivo

Podia ser melhor se não tivesse plateia...

ira vivo Classificação: BBB

Ano de lançamento: 2000

Melhor música: Qualquer uma das antigas...

Faixas:

  1. Gritos na Multidão
  2. Dias de Luta
  3. Longe de Tudo
  4. É Assim Que Me Querem
  5. Como os Ponteiros de Um Relógio
  6. Superficial (Como um Espinho)
  7. Mudança de Comportamento
  8. Coração
  9. Vida Passageira
  10. Flores em Você
  11. Receita Pra se Fazer um Herói
  12. Logo de Cara
  13. Tolices
  14. Um Dia Como Hoje
  15. Envelheço na Cidade
  16. Inundação de Amor
  17. Vitrine Viva
  18. Bebendo Vinho
  19. Pobre Paulista
  20. Núcleo Base

Isso É Amor

Um álbum caça-níqueis? Sim, mas pelo menos honesto

ira isso é amor

Classificação: A

Ano de lançamento: 1999

Melhor música: O Telefone

Faixas:

  1. Bebendo vinho (Wander Wildner)
  2. Teorema (Dado Villa-Lobos - Renato Russo - Marcelo Bonfá)
  3. O Telefone (Julio Barroso)
  4. Chorando no campo (Bernardo Vilhena - Lobão)
  5. Flashback (Cláudio Rabello - Dalto)
  6. Um girassol da cor de seu cabelo (Márcio Borges - Lô Borges)
  7. Mudança de comportamento (Edgard Scandurra)
  8. O que me importa (Cury)
  9. Jorge Maravilha (Julinho da Adelaide)
  10. Abraços e brigas (Taciana Barros - Edgard Scandurra)
  11. Sentado à beira do caminho (Erasmo Carlos - Roberto Carlos)
  12. A vida tem dessas coisas (Bernardo Vilhena - Ritchie)
  13. Alegria de viver (Alegria de vivir) (R.Heredia)
  14. Minha gente amiga (San Martin - Ronnie Von)

Comentário:

Não há muito o que dizer sobre um álbum de covers. Para o Ira!, tratou-se de um passo natural, já que nos discos anteriores praticamente a metade das canções era formada por releituras. No caso de Isso É Amor, trata-se de um disco de covers "conceitual". Todas as canções, de um modo ou de outro, falam de sentimentos. A seleção, por bem, não foi óbvia. Basta comparar com o disco que os Titãs fizeram no mesmo ano. Algumas versões ficaram realmente boas, algumas até mais adequadas à voz destroçada de Nasi do que as próprias canções do Ira!

Faixa a faixa:

Bebendo vinho: O relativo sucesso da canção ajudou a tornar cult o gaúcho Wander Wildner. Nota 8

Teorema: Praticamente igual à versão da Legião. Nota 8

O Telefone: Sensacional versão da Gang 90, com uma inspirada Fernanda Takai nos vocais. Nota 10

Chorando no campo: Versão punk do clássico do Lobão. Nota 9

Flashback: Mais uma boa e nada óbvia sacada. Nota 9

Um girassol da cor de seu cabelo: Incrível como ninguém consegue superar o original do Clube da Esquina. A participação de Samuel Rosa não ajuda em nada. Nota 5

Mudança de comportamento: Nasi lembra um cover de si próprio nesta releitura. Nota 7

O que me importa: Marisa Monte regravou essa música na mesma época, mas a versão do Ira! é melhor. Nota 8

Jorge Maravilha: Bom resgate de Chico Buarque, ops, Julinho da Adelaide. Nota 8 

Abraços e brigas: Boa canção da fase solo de Scandurra. Nota 8

Sentado à beira do caminho: Um pouco mais de peso em relação à maravilhosa composição de Roberto e Erasmo. Nota 9

A vida tem dessas coisas: Mais um revival dos anos 80, em uma versão bem convencional. Nota 7

Alegria de viver: Outro bom achado do disco, desta vez na voz de Scandurra. Nota 8

Minha gente amiga: Ira! resgata Ronnie Von para fechar o disco, em uma versão à la Santana e bem próxima à original. Nota 9

Você Não Sabe Quem Eu Sou

Eu sei, sim! Uma banda em crise de identidade

333Classificação: BBB

Ano de lançamento: 1998

Melhor música: Às Vezes, De Vez Em Quando

Faixas:

  1. Às Vezes, De Vez Em Quando (Edgard Scandurra)
  2. Correnteza (Ciro Pessoa, Nasi, Gaspa)
  3. Miss Lexotan 6 mg - Garota (Júpiter Maçã)
  4. Vou Me Encontrar (Nasi, Gaspa)
  5. Eu Não Sei (I Can't Explain) (Pete Townshend - Versão: Roger)
  6. Tantas Nuvens (Edgard Scandurra, Carlos Barmack, Ciro Pessoa)
  7. Nada Além (Gotta Get Away) (Ogilvie, Burns - Versão: Ciro Pessoa)
  8. Descendo o Mississipi (Edgard Scandurra)
  9. Justiça Militar, Justiça Civil (Liquidação de Verão) (Edgard Scandurra)
  10. Você Não Sabe Quem Eu Sou (Edgard Scandurra)
  11. A Natureza Sobre Nós (Ciro Pessoa, Nasi, Gaspa)

Comentário:

A pegada eletrônica deste disco do Ira! pegou muita gente de surpresa, mas não devia. Primeiro, porque praticamente todas as bandas nacionais resolveram embarcar na modinha da época. Segundo, porque Edgard Scandurra era um assíduo frequentador da cena clubber paulistana e acabara de gravar um disco solo com forte influência de "outras batidas, outras pulsações". Terceiro, porque dez anos haviam se passado desde Psicoacústica e o Ira! queria mostrar que podia fazer um disco igualmente inovador.

É claro que esse tipo de intenção declarada não costuma dar certo. Mas Você Não Sabe Quem Eu Sou tinha potencial para quebrar a escrita, se o Ira! tivesse mais ousadia. Como assim, já não é ousadia suficiente se aventurar pelas águas turvas da eletrônica? Sim, o problema é que a banda tentou agradar a gregos (fãs antigos), troianos (público da MTV) e clubbers (clubbers). E acabou não agradando ninguém.

Apesar de alguns ótimos momentos, a mescla entre rocks básicos (Vou Me Encontrar, Nada Além), rocks híbridos (Às Vezes, De Vez Em Quando, Eu não Sei), e canções 100% eletrônicas (Descendo o Mississipi, Justiça Militar, Justiça Civil) simplesmente não dá liga. Fora o fato de que algumas das canções envelheceram tão mal que mais parecem temas criados em um computador de fundo de quintal.

Faixa a faixa:

Às Vezes, De Vez Em Quando: O Ira! sabe como ninguém escolher as músicas para abrir os discos. Esta é uma espécie de resumo do que vem por aí: peso mesclado a batidas eletrônicas, mas talvez aqui seja o único momento em que a combinação funciona com perfeição. Nota 9

Correnteza: Nasi e Gaspa chamaram um letrista de verdade (Ciro Pessoa) para ajudar e produziram uma ótima canção. Nota 9

Miss Lexotan 6 mg - Garota: Graças ao Ira!, o mundo, ou pelo menos o mundinho pop, soube quem era Jupiter Maçã. Nota 8

Vou Me Encontrar: Uma forte candidata a hit desperdiçada no disco errado. Nota 8

Eu Não Sei (I Can't Explain): A boa produção não salva a versão modernosa do clássico do The Who. Nota 7

Tantas Nuvens: Típica balada de Scandurra, acrescida de um bom tempero eletrônico. Nota 8

Nada Além (Gotta Get Away): A coisa começa a desandar aqui, mas a canção talvez ficasse boa na voz do antigo Nasi. Nota 4

Descendo o Mississipi: É pra dançar ou pra botar no descanso de tela do computador? Nota 3

Justiça Militar, Justiça Civil: Scandurra, você não é DJ, muito menos invisível DJ... Nota 3

Você Não Sabe Quem Eu Sou: As letras de Scandurra estão muito longe da melhor forma. Nota 6

A Natureza Sobre Nós: Uma combinação mais palatável de eletrônica e pop. Nota 8

7

Quem falou para o Nasi que ele sabia compor?

ira 7 Classificação: B

Ano de lançamento: 1996

Melhor música: Eu Quero Sempre Mais

Faixas:

  1. Na Minha Mente (Edgard Scandurra)
  2. Me Perco Nesse Tempo (Ciça, Sandra Coutinho, Ana Maria Machado)
  3. É Assim Que Me Querem (Edgard Scandurra)
  4. Que Fim Levou Paris...! (Nasi, Johnny Boy)
  5. Você Não Serve Pra Mim (Renato Barros)
  6. Haiô Silver! (Joe Turner - Versão: Nasi)
  7. Eu Quero Sempre Mais (Edgard Scandurra)
  8. O Girassol (Edgard Scandurra)
  9. Te Odeio (Isso é o Amor) (Nasi)
  10. Difícil é Viver (Nasi, Ricardo Gaspa)
  11. House of the Rising Sun (The Animals)
  12. Nasci em 62 (Ao Vivo) (Edgard Scandurra)

Comentário:

Era para ser a grande volta do Ira! no ensaio de renascimento do rock nacional, catapultado, na verdade, pelo sucesso alcançado pelas boas bandas novas, como Nação Zumbi, Skank, Raimundos. O sétimo disco de estúdio do grupo foi o primeiro por uma pequena gravadora (a Paradoxx) e contava com um grande hit (É Assim Que Me Querem), que combinava bem com a onda legalize já da época.

E o que deu errado desta vez? Má promoção? Falta de oportunidade? Azar? Não, pela primeira vez o Ira! não tinha do que reclamar. Se o disco não decolou, embora tenha alcançado relativo sucesso para os padrões da gravadora, a culpa foi exclusiva da banda, que parecia ter bebido todas as cervejas e fumado todos os baseados antes de ir para o estúdio.

Só assim para explicar o fato de Nasi assumir o comando da parte criativa da banda. Se antes o vocalista aparecia com uma ou duas composições por disco, aqui ele contribui com quatro pérolas, das quais só se salva Difícil é Viver. A ausência de Scandurra, que só aparece com outras quatro canções novas, as melhores do disco, fez muita falta.

Faixa a faixa:

Na Minha Mente: A boa guitarra não conta com uma letra à altura. Um vacilo de Scandurra, com a ajuda do vocal cada vez mais tosco de Nasi. Nota 6

Me Perco Nesse Tempo: Cover das Mercenárias. Se não é grande coisa, ao menos acaba logo. Nota 6

É Assim Que Me Querem: Um Ira! dos bons tempos, graças a um sopro de inspiração de Scandurra. Nota 9

Que Fim Levou Paris...!: Lixo que Nasi devia ter guardado para a carreira solo. Nota 4

Você Não Serve Pra Mim: Cover que põe mais peso na original gravada por Roberto Carlos. Nota 7

Haiô Silver!: Mais um cover! Vamos trabalhar, minha gente! Nota 4

Eu Quero Sempre Mais: Para quem acha essa música boa (como eu), mas não suporta a voz da Pitty no Acústico (como eu!), aqui está a versão original, com a letra básica e sempre direto ao ponto de Scandurra. Nota 9

O Girassol: Outra boa canção ressuscitada no Acústico MTV. Nota 8

Te Odeio (Isso é o Amor): Te odeio, Nasi (brincadeira...) Nota 6

Difícil é Viver: Para o Nasi, difícil é compor. Mas pelo menos ele conseguiu acertar uma, com uma força do Gaspa, claro... Nota 8

House of the Rising Sun: Depois dos Stones, o Ira! busca encher o disco com um cover do Animals. Nota 7

Nasci em 62: A coisa estava tão feia que a banda fazia cover de si própria. Nota 5

Música Calma para Pessoas Nervosas

Canto do cisne (engasgado) da primeira fase da banda

ira musica calma Classificação: BBB

Ano de lançamento: 1993

Melhor música: Arrastão

Faixas:

  1. Arrastão (Ladrão que Rouba Ladrão) (Scandurra)
  2. Pai Nosso da Terra (Raul Seixas, Ricardo Gaspa e Scandurra)
  3. She Smiled Sweetly (Jagger e Richards)
  4. Campos, Praias e Paixões (Scandurra)
  5. Perigo (Arnaldo Antunes e Scandurra)
  6. O Homem é Esperto, mas a Morte é Mais (Nasi e Gaspa)
  7. Balada Triste (Dalton Vogeler e Esdras Silva)
  8. Fado de Minh'Alma (Scandurra e Gaspa)
  9. U.T.I. (Scandurra)

Comentário:

Das nove músicas de Música Calma para Pessoas Nervosas, duas são covers, duas possuem letras de terceiros e pelo menos uma pertence ao baú de Scandurra. Com um material assim não se faz grande coisa, mas quem disse que o Ira! se importava?

Foi nesse clima de fim de feira que saiu o último disco da banda com a WEA, época em que o grupo se apresentava em qualquer biboca para manter a carreira (com trocadilho, por favor...) e nem sonhava em emplacar um hit radiofônico.

De fato, nenhuma melodia aqui chega a ser assobiável. Mas o disco está longe de ser ruim. Pelo contrário, se houvesse um vestígio de esforço ou uma produção um pouco mais acabada, hoje seria um clássico. Bateu na trave, e o Ira! seguiria sarjeta abaixo...

Faixa a faixa:

Arrastão: Mais um riff matador de Scandurra, em cima, porém, de um rascunho de letra. Nota 9

Pai Nosso da Terra: Melodia poderosa sobre a letra perdida no baú de Raul Seixas. Nota 8

She Smiled Sweetly: Nasi bem que tentou, mas não conseguiu estragar o clássico dos Stones. Nota 8

Campos, Praias e Paixões: Com um pouco mais de capricho se tornaria mais um quase hit do Ira! Nota 8

Perigo: Mistura quase fatal de Ira! com Titãs. Nota 8

O Homem é Esperto, mas a Morte é Mais: Nasi chega perto de repetir o êxito de Advogado do Diabo. Nota 8

Balada Triste: A antiga canção de fossa sintetiza o clima de ressaca da banda naqueles tempos. Nota 9

Fado de Minh'Alma: Incrível como a banda não conseguia compor sequer quatro músicas boas para um disco... Nota 6

U.T.I.: Podia ter ficado esquecida no baú de Scandurra, apesar do bom riff. Nota 6

Meninos da Rua Paulo

Mais um fracasso, e o Ira! cai para a segunda divisão do rock

Ira!, 1991, Meninos Da Rua Paulo - capaClassificação: BB

Ano de lançamento: 1991

Melhor música: Um Dia Como Hoje

Faixas:

  1. Rua Paulo (Scandurra)
  2. Imagens de Você (Pictures of a Matchstick Man)
    (Francis Michael Rossi - Versão: Scandurra e Nasi)
  3. Amor Impossível (Scandurra)
  4. O Tolo dos Tolos (Gaspa e Scandurra)
  5. O Ladrão Era Eu (Scandurra)
  6. A Etiópia e os Meus Problemas (Scandurra)
  7. Você Ainda Pode Sonhar (Lucy in the Sky With Diamonds) (Lennon/McCartney - Versão: Raulzito)
  8. Um Dia Como Hoje (Scandurra)
  9. Prisão das Ruas (Scandurra)
  10. Cavalos Selvagens (Scandurra)
  11. Não Matarás (Scandurra)
  12. Os Meninos da Rua Paulo (Scandurra)

Comentário:

O Ira! está de vocalista novo? Não, o nome do Nasi aparece no encarte e a foto dele está na capa de Meninos da Rua Paulo. De quem então será essa voz rouca que atravessa quase todo o disco, nem sombra do Nasi de Vivendo e Não Aprendendo e Psicoacústica?

Pergunte a eles, já que não foi só nos vocais que a qualidade do Ira! parece ter decaído. As canções de Meninos da Rua Paulo não chegam a ser de todo ruins, mas são muito mais frouxas, especialmente no final, e facilmente esquecíveis.

Embora mais fraco que os discos anteriores, Rua Paulo ao menos ganha em consistência na comparação com Clandestino, por exemplo. E Scandurra ainda era capaz de soltar pérolas como Um Dia Como Hoje e Prisão das Ruas. O que não foi o suficiente para tornar o disco mais um fracasso comercial e condenar o grupo ao ostracismo.

Em tempo: o título é uma referência ao romance juvenil do húngaro Ferenc Molnar. Scandurra adora o livro e chegou a escrever na orelha do relançamento do livro. E daí?

Faixa a faixa:

Rua Paulo: Início promissor, com uma das melhores guitarras de Scandurra e, por consequência, do rock nacional. Nota 9

Imagens de Você: Estava cada vez mais difícil preencher um disco, mas nada que uma versão meia-boca não resolva: Nota 7

Amor Impossível: Aqui, a voz acabada de Nasi se mostra por completo, mas o bom instrumental ao estilo mod do início da carreira da banda salva. Nota 6

O Tolo dos Tolos: Uma espécie de Tolices 2 (percebeu o título?), mas sem o carisma da original. Nota 7

O Ladrão Era Eu: Punkzinho sem maiores pretensões. Nota 7

A Etiópia e os Meus Problemas: Como se Scandurra estivesse mesmo interessado na Etiópia... A julgar pela quantidade de drogas que a banda ingeria na época, a Colômbia talvez fosse mais relevante... Nota 8

Você Ainda Pode Sonhar: Beatles + Queen + Raul Seixas = boa versão, quase destruída pela voz acabada de Nasi. Nota 8

Um Dia Como Hoje: Eu acredito em você, Scandurra, eu acredito em boas canções. E quase não acreditei que Nasi se esforçou para cantar um pouco melhor... Nota 9

Prisão das Ruas: Scandurra mostra que, às vezes, consegue escrever uma grande letra. E o disco acaba aqui. Nota 9

Cavalos Selvagens: Sem comentários. Nota 6

Não Matarás: Sem comentários 2. Nota 5

Os Meninos da Rua Paulo: Instrumental sem brilho. Nota 5

Clandestino

Uma pena, mas o público já estava farto do rock and roll

Ira - ClandestinoClassificação: A

Ano de lançamento: 1990

Melhor música: Tarde Vazia (categoria hit) e Cabeças Quentes (categoria cool)

Faixas:

  1. Melissa (Scandurra, Nasi e Andre Jung)
  2. Tarde Vazia (Scandurra e Ricardo Gaspa)
  3. Efeito Bumerangue (Scandurra e Ciro Pessoa)
  4. Boneca de Cera (Scandurra)
  5. Cabeças Quentes (Nasi e Scandurra)
  6. O Dia, A Semana, O Mês (Scandurra)
  7. Patroa (Scandurra)
  8. Consciência Limpa (Scandurra)
  9. Clandestino (Scandurra e Gisele Carmo)
  10. Nasci Em 62 (Scandurra)

Comentário:

Odiado pela grande mídia, pelos produtores de festivais e até mesmo por parte da gravadora, o Ira! acabou perdendo também o apoio da crítica depois de Clandestino. Tudo porque a banda resolveu compor a maior parte do repertório deste disco com velharias do baú de Edgard Scandurra, que havia acabado de deixar suas composições mais recentes registradas no primeiro disco solo, Amigos Invisíveis.

Bobagem! Se três anos antes o "genio" Renato Russo fizera o mesmo com Que País é Este, por que o Ira! também não podia? E a raspa do tacho de Scandurra não deixava nada a dever aos delírios punks do líder da Legião, como se pode ver em canções como Nasci em 62 e O Dia, A Semana, O Mês. Na humilde opinião deste escriba, Clandestino bem que merecia sorte melhor.

O problema é que o País era bem diferente da época do lançamento do disco de sobras da Legião. A era Collor estava no auge, com toda a sua breguice sintetizada na imagem do presidente mauricinho andando de jet ski no Lago Paranoá. As bandas de rock já não repetiam os sucessos radiofônicos dos anos anteriores e não havia espaço para estrelas prepotentes e sem sucesso comercial como Edgard e seus meninos da rua Paulo...

Em suma: o Ira! precisava no mínimo de um Vivendo e Não Aprendendo 2 se quisesse vender discos nesse clima de terra arrasada. E este Clandestino está mais para um Psicoacústica 2. De fato, a faixa de abertura possui participação do ator de O Bandido da Luz Vermelha, filme cujos trechos foram sampleados no disco anterior, mas o resultado final não chega aos pés da obra-prima da banda.

Nem mesmo a presença de um grande hit (Tarde Vazia) fez o disco decolar. Aliás, a capa do disco (o teco-teco no solo, entendeu?) não podia refletir melhor o desastre comercial. Não que o grupo estivesse muito preocupado, já que as drogas não paravam de chegar e o baú do Edgard parecia sem fundo...

Faixa a faixa:

Melissa: Uma tentativa frustrada de emular Psicoacústica. Nota 7

Tarde Vazia: Céus, a simplicidade! Em vez de recorrer a filósofos e referências tortuosas, Scandurra vai direto ao ponto: Você me ligou naquela tarde vazia, e me valeu o dia. Aprende, Renato Russo! Não fez o sucesso que merecia. Nota 10

Efeito Bumerangue: Mais um riff pegajoso e certeiro de Scandurra embala esta porrada. Nota 9 

Boneca de Cera: Uma baladinha um tanto insossa, mas anos-luz à frente de coisas constrangedoras que o Ira! lançou depois. Nota 8

Cabeças Quentes: Sambinha-rock de primeira, com final a la Doors. Uma das grandes faixas de todos os tempos da banda. Nota 10 

O Dia, A Semana, O Mês: Do tempo em que Scandurra escarrava boas canções. Nota 9 

Patroa: pequena pérola (de menos de dois minutos). Nota 9

Consciência Limpa: Roquinho sem muito futuro, mas preenche bem o espaço. Nota 7

Clandestino: Com esse peso todo, ninguém diria que é a mesma banda que dois anos se disse farta do rock and roll. Nota 8

Nasci Em 62: Como nasci em 77, também não vi Kennedy morrer e tenho ainda menos para dizer sobre esta música... Nota 9

Psicoacústica

Outros sons, outras batidas, muitas pulsações e inovaçõesira psico

Classificação: AAA+

Ano de lançamento: 1988

Melhor música: qualquer uma!

Faixas:

  1. Rubro Zorro (Scandurra, Jung, Gaspa e Nasi)
  2. Manhãs de Domingo (Scandurra)
  3. Poder, Sorriso, Fama (Scandurra)
  4. Receita Para Se Fazer um Herói (Ira! e Reinaldo Edgar Ferreira)
  5. Pegue Essa Arma (Scandurra)
  6. Farto do Rock 'n' Roll (Scandurra e Gaspa)
  7. Advogado do Diabo (Nasi e André Jung)
  8. Mesmo Distante (Scandurra)

Comentário:

Eu não fui uma das 50 mil testemunhas a comprar o LP Psicoacústica no lançamento – um fiasco para os padrões da época. O meu exemplar veio apenas anos depois, quando o disco já era aclamado como um dos maiores do rock nacional. Na minha cabeça adolescente, era coisa de crítico fracassado elogiar tanto um disco que não tinha sequer uma música com apelo comercial. Como esse terceiro disco do Ira! poderia superar o anterior, praticamente uma compilação de grandes sucessos e clássicos da banda?

A verdade é que não há como comparar este Psicoacústica com nada que a própria banda ou nenhuma outra jamais tenha feito em termos de rock no Brasil. É um disco difícil, sem dúvida. À primeira audição, parece uma tentativa de autossabotagem, bem no clima de "foda-se" que marcava Scandurra e Cia. O grupo já era non grato em quase todos os programas de TV e festivais de rock e fez o favor de virar as costas também para o público. Assim, em vez de riffizinhos palatáveis como os de Envelheço na Cidade, as porradas de Rubro Zorro recepcionam o ouvinte. Onde estão os refrões assobiáveis? Em Pegue Essa Arma? Faz-me rir...

Chega a ser incrível que, em meio a todo esse caos, o Ira! tenha conseguido produzir um disco tão bom. Bom, não, espetacular! E da primeira à última nota. É aqui que Nasi alcança a plenitude como vocalista (antes de desabar ladeira abaixo nos anos 1990), Jung e Gaspa trabalham com uma harmonia única e Scandurra comanda a orquestra alcançando sons inimagináveis de sua fender. Isso sem falar na densa camada de sons e samplers (uma das novidades para a época) que parecia ser acessível apenas a faca. E o mais incrível é que o disco parece não ter a pretensão de ser genial. Não tem a pompa de um V, da Legião Urbana, tampouco a controvérsia de Cabeça Dinossauro, dos Titãs. É ousadia em estado bruto, lapidada por artesãos inspirados.

Faixa a faixa:

Rubro Zorro: Grande introdução, letra afiada, solo extraordinário! Nota 10

Manhãs de Domingo: Após os primeiros segundos ao som de um coral, cinco minutos de pancada e um riff poderosíssimo. A letra é a cara de Scandurra: repetições mil e variações sutis. Nota 10

Poder, Sorriso, Fama: Uma crítica aos críticos ou ao estilo mauricinho e complacente das outras bandas? Nota 9

Receita pra se Fazer um Herói: Seria o hit do disco, não fosse a polêmica de plágio. Edgard musicou um poema de um colega do Exército que não revelou que a verdadeira fonte era um poeta português. Tirando o fator extra-campo, a canção inova o repertório do Ira! e do próprio rock nacional, com a levada reggae. E a tamanha briga pela letra é justificável, pois é uma das melhores da banda. Nota 10

Pegue Essa Arma: Imagino a reação das pessoas ao ouvirem essa no rádio pela primeira vez... Música de trabalho mais improvável, impossível! Nota 10

Farto do Rock 'n' Roll: Se for verdade a lenda de que Nasi se recusou a cantar essa porque a considerou "forte demais", é um tremendo bundão esse vocalista... Ironicamente, é um rock maior que qualquer outro das bandas rivais. Nota 10

Advogado do Diabo: Revolucionária, pode ser considerada a primeira canção mangue bit da história, anos antes de Chico Science. Nota 10

Mesmo Distante: Balada também ao estilo Scandurra fecha o disco com maestria. Nota 9

Vivendo e Não Aprendendo

Eles viram flores (e sucesso) em você

ira vivendo Classificação: AAA

Ano de lançamento: 1986

Melhor música: Dias de Luta

Faixas:

  1. Envelheço na Cidade (Scandurra)
  2. Casa de Papel (Scandurra)
  3. Dias de Luta (Scandurra)
  4. Tanto Quanto Eu (Gaspa e Scandurra)
  5. Vitrine Viva (Luís Arnaldo Braga e Scandurra)
  6. Flores em Você (Scandurra)
  7. Quinze Anos (Vivendo e Não Aprendendo)
    (Gaspa e Scandurra)
  8. Nas Ruas (Scandurra)
  9. Gritos na Multidão (Scandurra)
  10. Pobre Paulista (Scandurra)
  11. Não Pague Pra Ver" (demo) (Scandurra)*
  12. Flores em Você (demo) (Scandurra)*
  13. Pobre Paulista (demo) (Scandurra)*
  14. Nasci em 62 (demo) (Scandurra)*
  15. Tanto Quanto Eu (demo) (Gaspa e Scandurra)*

Comentário:

O leitor desta Discoteca Completa pode não ter idade suficiente para se lembrar. Mas já houve um tempo em que a melhor estratégia para se divulgar o trabalho de um artista era tentar incluir uma uma canção do último disco na trilha sonora de uma novela. O nosso Ira!, portanto, ganhou um grande empurrão ao ter uma música logo na abertura de uma, e no horário nobre das oito!

Vivendo e Não Aprendendo é, de longe, o álbum mais bem sucedido comercialmente da banda. E tinha tudo para dar errado, já que as gravações foram um perrengue. Basta dizer que nada menos que quatro produtores passaram pelo disco. Além de Pena Shimidt, responsável pela ótima estreia do grupo, assinam a produção o ex-Mutante Liminha, com quem o grupo teve brigas homéricas, Vitor Farias, Paulo Junqueiro e a própria banda.

O resultado foi um disco um tanto desigual aqui e acolá, especialmente nas duas últimas faixas, registradas ao vivo porque a banda se recusou a gravá-las. Mas quem se importa com isso se o principal, que são as canções, nunca foram tão boas? A promoção certeira da gravadora WEA também contribuiu para as 250 mil cópias vendidas, embora dificilmente Vivendo e Não Aprendendo chegasse tão longe se Flores em Você não tivesse sido martelada em horário nobre durante quase um ano...

Faixa a faixa:

Envelheço na Cidade: Um dos hinos do rock nacional e das mais tocadas nas festinhas da minha juventude, muito antes de eu envelhecer na cidade. Nota 10

Casa de Papel: Crítica social ao modo do Ira!: sem a contundência de um Legião ou a grossura dos Titãs, mas certeira. Nota 9

Dias de Luta: Riff marcante, letra com sacadas tão inocentes quanto geniais ("Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho"). Extraordinária canção! Nota 10

Tanto Quanto Eu: Levada esperta, lembra um pouco o clima do primeiro disco. Nota 9

Vitrine Viva: Há quem adore essa música. Não é o meu caso. Nota 7 

Flores em Você: Cada um tem a Eleanor Rigby que merece. Esta é a nossa, mas, por sorte, foi escrita por um Scandurra em fase inspirada. Nota 10

Quinze Anos (Vivendo e Não Aprendendo): "Seu amor hoje me alimentará amanhã". Quer coisa mais 15 anos? Nota 8

Nas Ruas: Acho que só consegui entender de fato o que Scandurra sentia quando compôs essa música quando me mudei para São Paulo e saí às ruas em uma noite de frio pela primeira vez. Nota 10

Gritos na Multidão: Fique parado ao ouvir essa, se puder. Nota 10

Pobre Paulista: Se ninguém me avisasse eu jamais me tocaria da polêmica sobre o racismo na letra ("Eu quero ver gente do meu sangue...") Scandurra sempre negou a intenção, e não tenho porque não acreditar nele. Nota 10

Mudança de Comportamento

É tolice, eu sei. Mas também é rock and roll!

ira mudança Classificação: AA

Ano de lançamento: 1985

Melhor música: Núcleo Base

Faixas:

  1. Longe de Tudo (Scandurra)
  2. Núcleo Base (Scandurra)
  3. Mudança de Comportamento (Scandurra)
  4. Tolices (Scandurra)
  5. Coração (Scandurra)
  6. Saída (Scandurra)
  7. Ninguém Precisa da Guerra (Scandurra)
  8. Por Trás de Um Sorriso (Ira! e Pena Schmidt)
  9. Como os Ponteiros de Um Relógio (Scandurra)
  10. Sonhar Com Quê? (Scandurra e Nasi)
  11. Ninguém Entende um Mod (Scandurra)
  12. O Dia, A Semana, O Mês (ao vivo) (Scandurra)*
  13. Não Consigo Me Entreter (ao vivo) (Scandurra e Nasi)*
  14. Sonhar Com Quê? (ao vivo) (Scandurra e Nasi)*
  15. Ninguém Precisa da Guerra" (ao vivo) (Scandurra)*
    *faixas bônus

Comentário:

Ah, a juventude! Edgard Scandurra já não era um garoto de 18 anos inconformado com o serviço militar obrigatório quando teve teve a oportunidade de gravar o primeiro disco com o Ira! Mas foi esperto ao acrescentar ao repertório algumas canções compostas para outras bandas das quais havia feito parte.

O disco, como o de outros grupos nacionais da época, está longe de ser um primor de gravação. A diferença é que, no caso do Ira!, ao menos havia um guitarrista de verdade tocando e um produtor razoavelmente experiente. A versão em CD, lançada 15 anos depois, traz bônus interessantes, como a inédita Não Consigo Me Entreter.

Faixa a faixa:

Longe de Tudo: Grande guitarra e rock envolvente. Nota 9

Núcleo Base: Clássico absoluto! Tudo perfeito aqui, da produção à letra do inconformado recruta Scandurra. Nota 10

Mudança de Comportamento: Canção com um pé no brega e outro na melhor tradição de balada roqueira. Nota 10

Tolices: Constrangedor ouvir os quarentões do Ira! em fase final da carreira tocando essa baladinha adolescente que fazia todo o sentido vinte anos antes. Nota 8

Coração: A canção simples, direta, envolvente e (por que não?)genial. Nota 10

Saída: Preenche bem o disco, mas passa batida. Nota 7

Ninguém Precisa da Guerra: Típica composição de Scandurra, com muitas repetições, que permanecem por horas na cabeça. Nota 8

Por Trás de Um Sorriso: Scandurra não gosta mesmo de televisão... Nota 9

Como os Ponteiros de Um Relógio: Rápida, mas nada rasteira. Nota 9

Sonhar Com Quê?: Mais um riff pegajoso embala a letra com a típica rebeldia juvenil de Scandurra. Nota 9

Ninguém Entende um Mod: É verdade. Pelo menos eu não entendo. Nota 6

Ira!

Pobres paulistas

ira

Classificação: AA

Formação clássica:

  • Marcos Nasi Valadão (voz)
  • Edgard Scandurra (guitarra e voz)
  • André Jung (bateria)
  • Ricardo Gaspa (contrabaixo)

Comentário:

Como a grande maioria das bandas de rock brasileiras, o maior defeito dos paulistanos do Ira! foi não saber a hora de parar. Tivessem encerrado as atividades em 1988, após o lançamento do terceiro e definitivo disco, o aclamado Psicoacústica, após lançarem dois álbuns espetaculares, ou mesmo depois de Clandestino, o injustiçado disco seguinte, seriam considerados um dos grandes, senão o maior, grupo nacional de todos os tempos.

Mas, sabe como é, as contas não param de aparecer debaixo da porta, especialmente aquelas relacionadas ao consumo de substâncias ilícitas. E o Ira! continuou engolindo pó na estrada, literalmente, ao longo dos anos 1990 e 2000, e lançando discos sofríveis nesse meio tempo.

Quando a banda acabou, em 2007, em meio às brigas entre o vocalista Nasi com o empresário (e irmão) e os demais integrantes, a sensação era de que a banda já havia se esfacelado há muito. Ainda assim, algo me diz que um reencontro pode acontecer, e num espaço não muito longo de tempo...

Discografia e classificação:

Uma Outra Estação

Disco póstumo irregular, mas honesto, antes de tudo

Legião Urbana - Uma Outra Estação Classificação: BB

Ano de lançamento: 1997

Melhor música: Comédia Romântica

Faixas:

  1. Riding Song (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  2. Uma Outra Estação (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. As Flores do Mal (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  4. La Maison Dieu (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  5. Clarisse (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  6. Schubert Ländler (Schubert)
  7. A Tempestade (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  8. High Noon (Do Not Forsake Me) (Dimitri Tiomkin)
  9. Comédia Romântica (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  10. Dado Viciado (Renato Russo)
  11. Marcianos Invadem a Terra (Renato Russo)
  12. Antes das Seis (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  13. Marianne (Renato Russo)
  14. Sagrado Coração (Renato Russo)
  15. Travessia do Eixão (Nonato Veras)

Comentário:

Tinha tudo para ser um álbum caça-níqueis, como vários que se sucederam após a morte de Renato, principalmente em carreira solo. Mas a verdade é que ele havia gravado essas músicas para serem lançadas em A Tempestade, no que deveria ser um disco duplo.

Sobre Uma Outra Estação, existem boas e más notícias. A má é que muitas canções que ficaram de fora do disco anterior realmente eram muito ruins. A boa é que, com um olho no peixe e outro no gato, Dado Villa-Lobos barrou algumas boas canções provavelmente de propósito. É preciso dizer que o guitarrista melhorou como produtor, o que por si só já vale uma classificação melhor para este disco.

Os principais achados estão nas canções antigas, das quais muitos fãs já haviam ouvido falar, e que finalmente vieram à tona. Renato com certeza não se revirou no túmulo, até porque ele foi cremado... putz, péssima essa...

Faixa a faixa:

Riding Song: Bela introdução, com um bom riff sobre uma apresentação da banda e letra de Dado Villa-Lobos! Calma, são apenas dois versos... Nota 9

Uma Outra Estação: Uma das que injustamente ficou de fora de A Tempestade. Nota 8

As Flores do Mal: Típica canção da fase final da Legião, sem apelo. Foi escolhida como "música de trabalho" e chegou a tocar nas rádios. Nota 7

La Maison Dieu: Se Renato estivesse à frente da banda, essa canção certamente se tornaria um clássico. Aqui, ficou um tanto frouxa. Nota 8

Clarisse: Tenebrosa. Com seus mais de 10 minutos, é altamente proibida para adolescentes à beira de um ataque de nervos. Nota 7

Schubert Ländler: Como não dar 10 a Schubert? Nota 10

A Tempestade: O vocal de Renato está péssimo e a letra é uma das piores da banda. Resta a boa guitarra. Nota 5

High Noon: Cover, funciona como canção de transição. Nota 7

Comédia Romântica: Difícil imaginar que Renato ainda tinha ânimo para escrever letras como essa. Deliciosa canção. Nota 9

Dado Viciado: Renato, ao violão, dá conta sozinho do recado. Nota 8

Marcianos Invadem a Terra: Dinho Ouro Preto já havia regravado essa canção e, pasmem, ficou melhor que a versão de Renato. Mas a música é ótima! Nota 8

Antes das Seis: Mais uma que viraria hit fácil se gravada por outra banda. Acorda e faz uma versão, KLB! Nota 9

Marianne: bela canção em inglês. Nota 8

Sagrado Coração: Renato não chegou a gravar a letra. Fica, portanto, como registro histórico do bonito instrumental. Nota 6

Travessia do Eixão: Outra curiosidade tirada do baú da Legião fecha o disco. Nota 7

A Tempestade (ou O Livro dos Dias)

Testamento mal redigido

legião a tempestade Classificação: B

Ano de lançamento: 1996

Melhor música: A Via Láctea

Faixas:

  1. Natália (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  2. L'Avventura (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. Música de Trabalho (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  4. Longe do Meu Lado (Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  5. A Via Láctea (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  6. Música Ambiente (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  7. Aloha (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  8. Soul Parsifal (Renato Russo/Marisa Monte)
  9. Dezesseis (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  10. Mil Pedaços (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  11. Leila (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  12. 1º de Julho (Renato Russo)
  13. Esperando por Mim (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  14. Quando Você Voltar (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  15. O Livro dos Dias (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Comentário:

O título do disco faz referência à última peça de Shakespeare e, não fosse o acontecimento posterior (a morte de Renato, um mês depois do lançamento) poderia bem se chamar A Comédia dos Erros. Na época, sobravam boatos de que o líder da Legião não estava bem.

Os sinais estavam no próprio disco, que pela primeira vez não trazia as inscrições Ouça no Volume Máximo e Urbana Legio Omnia Vincit. No lugar delas, uma citação a Oswald de Andrade: O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus. O fato de a banda não promover o disco nem sequer fazer um clipe também prenunciava que o pior estava por vir.

Musicalmente falando, o pior veio. Renato sabia que este seria o último disco da Legião, por uma série de razões. Por isso, esforçou-se e compôs material para o que seria um disco duplo, mas depois simplesmente perdeu interesse, ou talvez já estivesse debilitado o suficiente pela doença. O fato é que, seja por qual motivo for, Renato pela primeira vez não estava à frente da banda durante a gravação de um disco, e isso se mostrou fatal para "A Tempestade".

De todos os equívocos, no entanto, o maior foi deixar o disco sob o comando de Dado Villa-Lobos. O guitarrista mostrou-se um produtor pífio, pior até do que o terrível Mayrton Bahia.

Falando assim, parece que A Tempestade é uma droga, mas não é. Tem momentos inspirados aqui e acolá, e se fosse mais curto poderia ter alcançado uma classificação melhor. De quebra, sobraria mais material para os necrófilos de plantão...

Faixa a faixa:

Natália: Boa faixa de abertura, com guitarras e poucos acordes, bem na linha Legião. A letra é boa e resume o estado de Renato: Vamos falar de pesticidas, de tragédias radioativas, de doenças incuráveis. Vamos falar de sua vida... Nota 9

L'Avventura: Tristíssima e bela, um dos melhores momentos do disco. Nota 9

Música de Trabalho: Assim como a voz de Renato, a canção não se sustenta, mas não chega a ser ruim. Nota 6 

Longe do Meu Lado: Pior música da Legião. Bonfá entregou essa sequência terrível de acordes de teclado para Renato pôr a letra, uma lamúria que deixaria Reginaldo Rossi corado. Nota 1

A Via Láctea: Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho. Uma das grandes letras de Renato na fase final. Segue a linha lúgubre das faixas anteriores, mas com uma grande canção por trás. Nota 9

Música Ambiente: O título não nega, apesar disso consegue manter o nível. Nota 7

Aloha: Letra messiânica sobre a juventude, mas sem o brilho de outrora. A música tem pegada. Nota 8

Soul Parsifal: Renato se esforça e manda bem na letra feita sobre a música de Marisa Monte. Um pequeno achado. Nota 8

Dezesseis: Tentativa de reviver Faroeste e Eduardo e Mônica, mas os tempos são outros e o tiro não é certeiro. Nota 8

Mil Pedaços: Canção intimista e romântica que lembra o Roberto Carlos do começo dos anos 1970. Nota 9

Leila: Letra com momentos constrangedores, ainda mais para um compositor como Renato Russo, e música longa demais. Nota 5

1º de Julho: Feita para Cássia Eller, a versão gravada por Renato, desta vez, é melhor. Nota 8

Esperando por Mim: Confessional, fecharia bem o disco, mas não foi assim que aconteceu. Nota 8

Quando Você Voltar: Lembra o Roberto Carlos dos anos 1990, ou seja, fuja! Nota 3

O Livro dos Dias: Chatíssima faixa de encerramento, que até poderia ser melhor, não fosse a mão pesada do produtor Dado Villa-Lobos. Nota 4

O Descobrimento do Brasil

Depois dos anos 1970, de volta à decada de 1980

Legião Urbana descobre Classificação: BBB

Ano de lançamento: 1993

Melhor música: Perfeição

Faixas:

  1. Vinte e Nove (Renato Russo)
  2. A Fonte (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. Do Espírito (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  4. Perfeição (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  5. O Passeio da Boa Vista (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  6. O Descobrimento do Brasil (Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  7. Os Barcos (Renato Russo)
  8. Vamos Fazer um Filme (Renato Russo)
  9. Os Anjos (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  10. Um Dia Perfeito (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  11. Giz (Renato Russo)
  12. Love in the Afternoon (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  13. La Nuova Gioventú (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  14. Só por Hoje (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)

Comentário:

Primeira derrapada da Legião. Nada grave, a reputação deles sofreu apenas leves escoriações. Lembro-me de que havia grande expectativa em torno deste disco, o primeiro que realmente acompanhei e comprei no dia do lançamento. Afinal, eu estava com 15 anos na época, o público alvo da banda personificado.

Havia alguns rumores de que a Legião teria gravado um rap. Imaginem só o impacto de uma notícia dessas para um fã que ainda dava seus primeiros passos na descoberta do rock, que havia acabado de ouvir o Led Zepellin IV! Na verdade, tratava-se da faixa Perfeição, que de rap tem muito pouco além da longa letra de protesto cantada rapidamente.

É o ponto alto de um disco irregular, anos-luz à frente do que outras bandas da mesma geração faziam na época e o mais bem acabado do ponto de vista da sonoridade e produção. Porém, para usar uma expressão citada em uma das músicas da própria Legião, era mais do mesmo. Não era isso que você queria ouvir...

Faixa a faixa:

Vinte e Nove: Abertura forte, com letra esperta e um longo final instrumental que fica na cabeça. Nota 9

A Fonte: O excesso de produção, que tanto faltou aos primeiros discos da Legião, aqui acaba atrapalhando um pouco. Mas a música é boa. Nota 8

Do Espírito: Rock pesado, uma espécie de filha bastarda do samba "Vou Deitar e Rolar", de Baden Powell. Mas bem inferior, claro. Nota 6

Perfeição: Renato havia prometido por várias vezes pegar leve nas críticas e se dedicar a "temas maiores". Mas não resistiu e juntou, em uma única canção, todo o ressentimento de uma geração. Apesar de muito mais elaborada, não teve nem de longe a repercussão de Que País É Este. Nota 10

O Passeio da Boa Vista: Belíssima faixa instrumental, transição ideal para as canções seguintes. Nota 9

O Descobrimento do Brasil: A música título poderia ser uma Penny Lane da Legião, mas não vai muito longe. Mesmo assim é bem agradável. Nota 8

Os Barcos: Uma das melhores do disco e da última fase da carreira de Renato Russo. O disco seria grande se investisse nesta verve. Nota 10

Vamos Fazer um Filme: Tocou muito nas rádios e tem a cara da Legião dos anos 1980, mas nada inesquecível. Nota 8

Os Anjos: Simpática e, se não é a melhor coisa que a Legião já fez, pelo menos termina logo. Na época, ensinei o "Hoje não dá..." ao meu papagaio. Nota 8

Um Dia Perfeito: Lembra-se de O Mundo Anda Tão Complicado? Pois é, esta é uma espécie de continuação, que, como quase todas, é muito inferior à original. Nota 6

Giz: Renato deu um grande golpe publicitário na época da turnê do disco ao proclamar esta como a melhor música que já teria composto. De fato, a canção é boa, mas hoje ningúém mais lembra dela, ao contrário dos clássicos dos discos anteriores. Nota 8

Love in the Afternoon: Pior música da banda (até então). Letra lacrimosa com música arrastada, parece até uma gravação do Catedral. Nota 4

La Nuova Gioventú: Banda tenta retomar o peso perdido nas faixas anteriores, mas é difícil engrenar de novo. Nota 7

Só Por Hoje: Letra inspirada e baseada em fatos reais (Renato buscava ajuda nos Alcoólicos Anônimos) além de música e arranjos bem colocados salvam o disco no final. Nota 9

V

Legião encarna Pink Floyd e renega os anos 1990 com louvor

Legião Urbana v Classificação: AAA

Ano de lançamento: 1991

Melhor Música: Metal Contra as Nuvens ou A Montanha Mágica

Faixas:

  1. Love Song (Nuno Fernandes Torneol/ Adapt.: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  2. Metal Contra as Nuvens (Dado Villa-Lobos/Eduardo Souto Neto/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. A Ordem dos Templários (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  4. A Montanha Mágica (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  5. O Teatro dos Vampiros (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  6. Sereníssima (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  7. Vento no Litoral (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  8. O Mundo Anda Tão Complicado (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  9. L'âge D'or (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  10. Come Share My Life (tradicional)

Comentário:

Sufocado pelo crescimento dos ritmos baianos e da música sertaneja, e de ressaca após a morte de Cazuza e do vazio criativo dos principais protagonistas, o rock brasileiro chega aos anos 1990 moribundo e ganha o último prego no caixão com o lançamento deste nada convencional disco da Legião Urbana. Quando todos esperavam algo como um "As Cinco Estações", Renato Russo se afunda na bebida e no rock progressivo, extrapola nas referências e metáforas, desilude-se (assim como o resto do País) com a eleição de Collor e concebe este "V". Tinha tudo para ser um desastre, mas, seis anos depois do lançamento do primeiro disco, Bonfá e Dado mostraram que aprenderam a tocar, ao menos um pouco, e o produtor Mayrton Bahia começou a mostrar algum serviço. O resultado foi o melhor disco da Legião, mas também o mais incompreendido e detratado. A frase estampada no encarte "Bem vindo aos anos 70" resume tudo. O público se afastou e o caminho para o axé e o sertanejo – e, mais tarde, o pagode – ficou livre.

Faixa a faixa:

Love Song: O disco começa com essa adaptação de uma cantiga portuguesa, um prenúncio do que vem por aí. Belíssimo instrumental. Nota 9

Metal Contra as Nuvens: Provavelmente o esforço máximo da Legião em termos sonoros e líricos. O ambiente é o mesmo de Love Song, mas trata-se apenas de uma fachada para Renato desancar as promessas do caçador de marajás Fernando Collor. Nem sempre a referência é clara, mas não importa. Com seus mais de 11 minutos, a música é grande, e não me refiro à duração. Nota 10

A Ordem dos Templários: Instrumental viajandona, com mais influências e trechos de canções medievais. Praticamente uma continuação da linha das duas primeiras faixas. E aqui a maioria do público já foi embora. Nota 8

A Montanha Mágica: A mais alucinada e rasgada da banda. O título, emprestado do clássico de Thomas Mann (que eu não li), cai como uma luva a esse relato que poderia ter sido escrito por um dos companheiros de Rehab de Amy Winehouse. Nota 10

O Teatro dos Vampiros: Uma das melhores letras de Renato, com um instrumental que ganhou versão definitiva no Acústico MTV, gravado no ano seguinte. Nota 10

Sereníssima: A primeira música "Legião Urbana" do disco. Ajuda a respirar um pouco e a desligar aquele gás que já começava a deixar o ar meio abafado. Nota 10

Vento no Litoral: Pode ligar o gás novamente, aqui a dor de cotovelo beira o insuportável. Atire a primeira pedra quem nunca sentiu o mesmo, mas não soube expressar em palavras como o fez o grande Renato... Nota 10

O Mundo Anda Tão Complicado: Baladinha com final (ou seria início?) feliz. Se não fosse bem produzida, poderia se encaixar no repertório do disco "Dois". Nota 8

L'âge D'or: Não tenho a menor ideia se a referência ao filme de Buñuel vai além do título, a única porrada do disco, fora os três minutos de Metal Contra as Nuvens. Nota 9

Come Share My Life: Para encerrar, uma canção tradicional americana cuja única versão que ouvi foi a da Legião. Nota 8

As Quatro Estações

Disco que decretou a canonização de Renato Russo

Legião Urbana - As Quatro Estações Classificação: AAA

Ano de lançamento: 1989

Melhor música: Há Tempos

Faixas:

  1. Há Tempos (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  2. Pais e Filhos (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. Feedback Song for a Dying Friend (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  4. Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  5. Eu Era um Lobisomem Juvenil (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  6. 1965 (Duas Tribos) (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  7. Monte Castelo (Renato Russo)
  8. Maurício (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  9. Meninos e Meninas (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  10. Sete Cidades (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  11. Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Faixa a faixa:

Há Tempos: Um dos grandes hinos do rock nacional. E um inusitado hit sem refrão, que cresce a cada verso até quase explodir no final abobalhado e (por isso) genial: "Ela disse: lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa". Nota 10

Pais e Filhos: Esse disco mais parece Copa do Mundo. Mais um hino, que na tenra adolescência faz muito mais sentido que qualquer outro hino para muitos de nós. Agora que cresci e sou pai, o impacto certamente é menor, mas ainda emociona. Nota 10

Feedback Song for a Dying Friend: Renato queria porque queria mostrar que sabia cantar em inglês, mas decidiu fazê-lo numa canção muito pretensiosa e que não ficou bem acabada. Nota 8

Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto: Clássico do repertório da Legião. Baladinha pra cima e pra tocar na rádio. Nota 8

Eu Era um Lobisomem Juvenil: Se tivesse sido lançada na época do Dois ou do primeiro disco da Legião, seria um fiasco completo. Agora, com uma produção e um instrumental (um pouco melhores), ficou magistral. Nota 10

1965 (Duas Tribos): Um rock bem feitinho, mas nada surpreendente, ainda mais diante das outras faixas do disco. Nota 7

Monte Castelo: Referências mil nesta bela composição de Renato, um dos clássicos eternos da banda. Nota 10

Maurício: Para adolescentes em crise sentimental, com letra bem íntima. Nota 8

Meninos e Meninas: Um dos grandes hits da Legião. E, na época, só eu não percebi do que se tratava o refrão. Perdoem os meus 11 anos... Nota 10

Sete Cidades: Mais uma que viraria clássico com qualquer outra banda. Letra e música sintonizadas, com gaita fazendo um charme. Nota 9

Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar: Faixa perfeita para o encerramento, sintetiza a nova fase da Legião. Nota 9

Que País É Este 1978-1987

Disco de sobras. Mas que sobras!

Legião Urbana que país Classificação: A

Ano de lançamento: 1987

Melhor música: Faroeste Caboclo

Faixas:

  1. Que País É Este (Renato Russo)
  2. Conexão Amazônica (Renato Russo/Fê Lemos)
  3. Tédio (com um T Bem Grande Pra Você) (Renato Russo)
  4. Depois do Começo (Renato Russo)
  5. Química (Renato Russo)
  6. Eu Sei (Renato Russo)
  7. Faroeste Caboclo (Renato Russo)
  8. Angra dos Reis (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  9. Mais do Mesmo (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá/Renato Rocha)

Faixa a faixa:

Que País É Este: O único fato que denúncia os 32 anos da composição desta música é o fato de que nenhuma banda da atualidade seria capaz de fazer algo tão bom: três acordes e revolta em exagero, ou seja, na medida certa. Nota 10

Conexão Amazônica: Canção de boteco de faculdade também datada. Afinal, quem conhece um universitário que conheça Freud, Jung, Engels ou Marx hoje em dia? Nota 9

Tédio (com um T Bem Grande Pra Você): Essa talvez faça mais sentido para a turma de Brasília, mas não deixa de ser divertida. Nota 7

Depois do Começo: Depois de quatro pancadas sonoras e toscas, um skazinho com letra visual quebra o clima de quebradeira. Nota 8

Química: Com o fim anunciado do vestibular, perde um pouco de sentido, mas está entre os melhores rocks da Legião. Por conta da letra tida como infantil, a canção provocou a briga que decretou o fim do Aborto Elétrico, a primeira banda de Renato Russo. Nota 9

Eu Sei: Uma das favoritas dos fãs, mas para mim já passou do ponto. Nota 7

Faroeste Caboclo: A música que me fez descobrir a Legião, quando eu ainda era um rebento de uns 11 ou 12 anos. Pouco me importa as rimas pobres ou a história meio frouxa em alguns momentos, a canção é extraordinária! Nota 10

Angra dos Reis: Renato confessou estar meio sem inspiração quando escreveu esta. Que inveja... Nota 9

Mais do Mesmo: Um punk meio frouxo no meio de tantos clássicos. Nota 7

Dois

Clássico absoluto. Se ainda não tem, compre ou baixe agora

legiao urbana dois 1986 Classificação: AAA

Ano de lançamento: 1986

Melhor música: Índios

Faixas:

  1. Daniel na Cova dos Leões (Renato Russo/Renato Rocha)
  2. Quase Sem Querer (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha)
  3. Acrilic on Canvas (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)
  4. Eduardo e Mônica (Renato Russo)
  5. Central do Brasil (Renato Russo)
  6. Tempo Perdido (Renato Russo)
  7. Metrópole (Renato Russo)
  8. Plantas Embaixo do Aquário (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)
  9. Música Urbana 2 (Renato Russo)
  10. Andrea Doria (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  11. Fábrica (Renato Russo)
  12. "Índios" (Renato Russo)

Faixa a faixa:

Daniel na Cova dos Leões: Bela canção, com arranjo meio oitentista demais. Ganhou versão mais roqueira em "Músicas para Acampamento". Nota 8

Quase Sem Querer: Uma das músicas que melhor traduzem a Legião. Versos longos e refrão pegajoso, mas que quase não se repete, sob uma base acústica. Nota 10

Acrilic on Canvas: Até hoje eu não entendi essa letra. E daí? Cada verso desconexo traz uma sensação diferente, ao som de uma linha de baixo tenebrosa acompanhada pelo teclado moribundo. Nota 10

Eduardo e Mônica: Em uma lista dos personagens mais marcantes da literatura brasileira, os dois bem que poderiam ser incluídos. Violões desengonçados embalam a história bem humorada e com ótimas sacadas narrada pelo trovador Renato. Nota 10

Central do Brasil: Mesmo sem saber tocar direito, Renato extraía belas composições de seu violão, que o diga esta faixa instrumental. Nota 10.

Tempo Perdido: Mais um clássico máximo do repertório da banda. Ainda vai embalar muitas gerações de adolescentes ("...somos tão jovens, tão jovens, tão joveeeeeeens!!!"). Nota 10

Metrópole: Crítica social com guitarras no volume máximo. Nota 9

Plantas Embaixo do Aquário: Canção que traz o bordão "não deixe a guerra começar", que Renato usaria nos shows até dizer chega. Nota 9

Música Urbana 2: Mais uma faixa acústica. Chega, Renato... Nota 6

Andrea Doria: Grande letra de Renato, que de tão boa compensa o arranjo um tanto frouxo. Nota 10

Fábrica: Extraordinário rock, inspirada dos primeiros acordes ao final que prepara para a melhor de todas. Nota 10

"Índios": Diz a lenda que Renato escreveu a letra em cinco minutos. Talvez os mais inspirados de toda a carreira. Uma espécie de "A Day in the Life" (exagero, eu sei) da Legião. Tentei chorar e consegui. Sublime! Nota 10

Legião Urbana

Produção tosca a serviço de canções clássicas

Legião Urbana1985 Classificação: AA

Ano de lançamento: 1985

Melhor música: Geração Coca-Cola e todo o lado B

Faixas:

  1. Será (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  2. A Dança (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  3. Petróleo do Futuro (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)
  4. Ainda É Cedo (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá/Ico Ouro-Preto)
  5. Perdidos no Espaço (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  6. Geração Coca-Cola (Renato Russo)
  7. O Reggae (Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  8. Baader-Meinhof Blues (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  9. Soldados (Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  10. Teorema (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)
  11. Por Enquanto (Renato Russo)

Faixa a faixa:

Será: Uma das canções mais regravadas e mais grudentas da Legião. Renato Russo sabia das coisas e não abriu o primeiro disco da Legião com essa música à toa. Nota 9

A Dança: Produção terrível quase estraga esta espécie de reggae acelerado. Nota 7

Petróleo do Futuro: Roquinho esperto que sofre com a falta de um instrumental decente. Nota 7

Ainda É Cedo: Um dos grandes momentos do disco. Foi taxada de ser plágio de pelo menos umas cinco músicas. Mas quem se importa? A linha de baixo, o teclado e o refrão ficam horas na cabeça. Nota 10

Perdidos no Espaço: Canção despretensiosa, do tipo que fez falta nos últimos trabalhos da Legião. Nota 7

Geração Coca-Cola: Clássico absoluto, mas, convenhamos, um tiquinho datado. Cada verso soa como uma escarrada juvenil, uma explosão de hormônios que apenas quem já foi adolescente pode compreender. Nota 10

O Reggae: Reggae ou ska? Pouco importa, outra sacada genial de Renato com música de Bonfá. Nota 9

Baader-Meinhof Blues: Outra pérola do repertório da Legião. Raivosa, mas com um toque de melancolia no modo como é cantada. Nota 10

Soldados: Só porradas nesse lado B. Típica canção para se ouvir às vésperas da apresentação para o serviço militar, ao lado de Núcleo Base, do Ira! Nota 10

Teorema: Qualquer banda que tivesse uma canção como essa a colocaria como carro-chefe. A Legião, só para menosprezar a deixa escondida quase no fim do disco. Nota 10.

Por Enquanto: Arranjo de teclado meio esquisito não chega a esconder a beleza desta canção, uma das melhores da banda e que ganhou uma versão definitiva com Cássia Eller. Nota 10

Legião Urbana

Os filhos da revolução

Foto tirada da internet Classificação: AAA

Formação:

  • Renato Russo (voz, teclados, violão e contrabaixo)
  • Renato Rocha (contrabaixo) – saiu em 1988
  • Dado Villa-Lobos (guitarras)
  • Marcelo Bonfá (bateria e percussão)

Comentário:

Vamos lá, sem delongas: a Legião Urbana é a melhor banda de rock brasileira de todos os tempos. Certamente não a mais importante, tampouco inovadora, mas foi a que melhor transpôs a atitude e o ritmo anglo-saxão para o sotaque local. A resposta ao que diferencia o grupo dos demais é simples e atende pelo nome de Renato Russo. Conhecedor de rock como poucos, o líder da Legião soube dar uma identidade para a banda, talvez o atributo que mais falte aos demais conjuntos nacionais.

Essa mesma identidade, é importante dizer, também foi o maior limitador da banda, que no campo sonoro nunca foi muito longe. Os integrantes eram péssimos instrumentistas – na melhor tradição do punk – e, não fosse pelo próprio Renato, seriam completamente inexpressivos no palco.

A tal identidade da Legião Urbana era basicamente calcada na figura de seu líder. Primeiro, pelas letras – algumas realmente geniais, outras, supervalorizadas pelos fãs. Depois, pela coerência demonstrada ao longo da carreira. Todos os passos, inclusive o que levou à morte do vocalista, em outubro de 1996, pareciam calculados de modo preciso. Por fim, o legado da banda, com discos muito bons e canções que se tornaram clássicos, atrai novas gerações de admiradores, que se proliferam como as espinhas na adolescência (e muitos vão embora junto com elas, anos depois).

Discografia e classificação: