João Gilberto (Álbum Branco)

Exorcismo musical

Joao Gilberto - Joao Gilberto (1973)-image013

Classificação: AAA+

Ano de lançamento: 1973

Melhor música: tenho mesmo que escolher? tudo bem, vamos de ÁGUAS DE MARÇO

Faixas:

  1. Águas de Março (Tom Jobim)
  2. Undiú (João Gilberto)
  3. Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
  4. Avarandado (Caetano Veloso)
  5. Falsa Baiana (Geraldo Pereira)
  6. Eu Quero um Samba (Janet de Almeida / Haroldo Barbosa)
  7. Eu Vim da Bahia (Gilberto Gil)
  8. Valsa (Como são Lindos os Yóguis) (João Gilberto)
  9. É Preciso Perdoar (Alcivando Luz / Carlos Coqueijo)
  10. Izaura (Roberto Roberti / Herivelto Martins)

Comentário:

Imagine, caro leitor, uma música, qualquer uma. Imagine-a, agora, dividida em pequenos trechos e, em seguida, cada trecho desses “desossado”, com a faixa de voz desvinculada da trilha instrumental, e com a eliminação de toda e qualquer gordura. Agora imagine essa mesma canção depois de remontada, de forma não linear. Não, não imagine. Apenas alguém como João Gilberto seria capaz de conceber uma experiência do tipo.

Um conjunto de dez músicas que passaram por esse verdadeiro ritual de exorcismo compõe o disco homônimo de João Gilberto que se convencionou chamar de “Álbum Branco”. Dizer que o disco lançado em 1973 é o melhor de todos os tempos da música brasileira seria reduzir esta obra que, se até hoje sequer consegui decifrar, o que dirá classificar…

Um pouco de história: João precisou ir até os Estados Unidos para, enfim, despir seu violão dos arranjos que tiravam o foco de seus primeiros discos e, principalmente, livrar-se dos palpiteiros de plantão. Acompanhado apenas da percussão sempre impecável de Sonny Carr, pôde fazer o que bem entendesse das canções e tirar o máximo de cada uma delas, em todos os sentidos.

Além da seleção perfeita do repertório, que incluiu pela primeira vez canções de Gil e Caetano, João nos brinda com duas composições próprias, e que até onde sei são as últimas que ele gravou em estúdio.

Foi também neste disco que João moldou o último alicerce de seu estilo: a repetição. Como em um “looping” não-programado, cada faixa do Álbum Branco se estende até o ponto de aniquilar o ouvinte, que passa a se ver (ou se ouvir) como parte da canção. Os acordes podem reverberar por horas ou dias inteiros no cérebro, seguidos sempre de perto pela voz sussurada, por vezes fantasmagórica.

De tão perfeito, esse disco deveria (se é que já não foi) ser alvo de algum estudo científico. Deve haver alguma explicação física (ou metafísica) para o efeito produzido por uma combinação tão reduzida e, ao mesmo tempo, tão complexa de sons e harmonia…

Faixa a faixa:

Águas de Março: João coloca uma represa na canção de Tom. Só passa água quando e do jeito que ele quer, e a vazão vai e vem num balanço extraordinário. Nota 10

Undiú: Não é uma canção, é um ritual. Quem não fica hipnotizado ao fim, bom sujeito não é. Nota 10

Na Baixa do Sapateiro: Ary Barroso desconstruído, inclusive da letra. Dos escombros surge uma nova canção, com um dos melhores violões já tocados em todos os tempos. Nota 10

Avarandado: Caetano reduzido e, ao mesmo tempo, eternizado. Nota 10

Falsa Baiana: Uma escola de samba portátil, com um violão e uma “vassourinha”. Nota 10

Eu Quero um Samba: Alguém me explica o que é aquela vocalização que o João faz no final (repetido umas cinco vezes)? Nota 10

Eu Vim da Bahia: João podia ficar o disco todo, lado A e B, tocando apenas esta. Ele tira absolutamente tudo da bela canção de Gil. Nota 10

Valsa (Como são Lindos os Yóguis): Fantasmas existem, na forma de João em voz “dobrada” no estúdio. Nota 10

É Preciso Perdoar: Samba em versão cavernosa de João, repetido quase como um mantra. Nota 9

Izaura: O sol volta a brilhar após a madrugada. Ouça trocando o balanço das caixas do lado direito e esquerdo para ouvir as vozes separadas de João e Miúcha. Nota 10

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