A divina comédia (ou ando meio desligado)

Sai a tropicália, fica o psicodelismo

Mutantes_Divina_Comédia

Classificação: AA

Ano de lançamento: 1970

Melhor música: Ando Meio Desligado

Faixas:

  1. Ando Meio Desligado (Arnaldo Baptista / Rita Lee / Sérgio Dias)
  2. Quem Tem Medo de Brincar de Amor (Arnaldo Baptista / Rita Lee)
  3. Ave, Lúcifer (Arnaldo Baptista / Rita Lee / Élcio Decário)
  4. Desculpe, Babe (Arnaldo Baptista / Rita Lee)
  5. Meu Refrigerador Não Funciona (Arnaldo Baptista / Rita Lee / Sérgio Dias)
  6. Hey Boy (Arnaldo Baptista / Élcio Decário)
  7. Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
  8. Chão de Estrelas (Orestes Barbosa / Silvio Caldas)
  9. Jogo de Calçada (Arnaldo Baptista / Ilton Oliveira / Wandler Cunha)
  10. Haleluia (Arnaldo Baptista)
  11. Oh! Mulher Infiel (Arnaldo Baptista)

Comentário:

Depois dos exageros que estragaram algumas das melhores canções do disco anterior, alguma voz sábia deve ter aconselheado: “Menos, Arnaldo!”. O momento histórico também era outro. Em apenas dois anos, a Tropicália havia sido enterrada e a linha dura da ditadura barbarizava. A aparente anarquia d’Os Mutantes, que passava abaixo do radar dos imbecis do regime, devia ser uma das poucas válvulas de escape.

Sei lá se de forma intencional, Arnaldo e cia resolveram dar uma guinada para o pop neste A Divina Comédia. Com uma influência mais psicodélica que tropical, temos aqui “Ando Meio Desligado”, um dos maiores sucessos da banda, e baladas quase comportadas, como “Desculpe, Babe”. E se um cover de Roberto e Erasmo não quer dizer um flerte com as massas, eu não sei mais nada.

Isso não quer dizer que o disco não tenha suas doses de experimentalismo. Quase todas as faixas contém elementos mutânticos, quase todos na dose certa. A releitura satírica de “Chão de Estrelas” é um dos grandes momentos, e o virtuosismo vocal de Rita em “Meu Refrigerador Não Funciona” é um desbunde. As duas canções instrumentais que fecham o disco talvez sejam os únicos erros, mas que nem de longe comprometem o conjunto.

Faixa a faixa:

Ando Meio Desligado: Clássico absoluto, com um dos grandes e apoteóticos finais de todos os tempos. Difícil até continuar o disco depois dessa. Nota 10

Quem Tem Medo de Brincar de Amor: Depois de uma porrada tão violenta, o nível se mantém. Quase uma “parte 2” de Ando Meio Desligado. Nota 10

Ave, Lúcifer: Élcio Decário traz um frescor para as letras d’Os Mutantes, nesta balada psicodélica de fazer inveja a qualquer bandinha de San Francisco. Nota 9

Desculpe, Babe: Outra pérola do repertório Mutante. O momento mais pop do disco. Nota 9

Meu Refrigerador Não Funciona: Primeiro flerte da banda com o rock progressivo? O refrigerador, na verdade, é uma metáfora para uma performance sexual fracassada de Arnaldo? Pouco importa. A canção é sensacional. Nota 10

Hey Boy: Canção abaixo do nível das anteriores, mas com letra divertida de Decário (crítica social?). Nota 8

Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo: Acento mutante caiu bem nesta típica balada de Roberto e Erasmo. Nota 8

Chão de Estrelas: Zombaria genial da canção de Silvio Caldas. Se lançada hoje talvez fosse banida por chatos políticamente corretos, algumas vezes mais intolerantes que os macacos da censura. Nota 10

Jogo de Calçada: Canção roqueira, marca da nova fase do grupo. Nota 9

Haleluia: Paródia religiosa? Talvez se encaixasse bem em algum culto moderninho atual… Nota 6

Oh! Mulher Infiel: Faltou uma letra aqui para acompanhar o riff metaleiro. Os Secos e Molhados lançaram uma canção com o mesmo título. O que isso quer dizer? Nada. Nota 6

Comentários