Bem vindo à era de Roberto
Classificação: AAA
Ano de lançamento: 1979
Melhor música: DOCE VAMPIRO ou CORRE-CORRE
Faixas:
- Chega Mais (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Papai me Empresta o Carro (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Doce Vampiro (Rita Lee)
- Corre-Corre (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Mania de Você (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Elvira Pagã (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Maria Mole (Rita Lee / Guto Graça Mello)
- Arrombou a Festa II (Rita Lee / Paulo Coelho)
Comentário:
O que aconteceu em apenas um ano? A pessoa na capa até se parece com a Rita Lee de Babilônia. Mas o disco parece de outra artista. A resposta está na contracapa. Ao lado dela (linda e gravidíssima), temos ele: o homem, o mito Roberto de Carvalho.Exagero? Bem, se dependermos das referências que a própria Rita faz em sua autobiografia, estamos diante do maior músico de todos os tempos das galáxias (ah, o amor...). Ela defende que Roberto foi o responsável por "sofisticar" as canções, com acordes mais complexos e arranjos polpudos.
Faltou combinar com os fãs, principalmente aqueles mais "raiz". Para eles, Rita se "vendeu" com músicas chiclete para tocar nas rádios e -- principalmente -- nas novelas. E o responsável por essa conversão teria sido justamente o Roberto.
É verdade que, sem o Tutti Frutti e as guitarras de Luiz Carlini -- que abandonou o barco levando o nome da banda junto --, o som de Rita perdeu boa parte da energia roqueira. Mas quem disse que isso é ruim?
As canções de Rita Lee (1979) -- ou o disco da "tatuagem", como parte dos fãs prefere chamar -- são fantásticas. As letras inspiradas (e safadas) marcaram uma geração e ajudaram mais o feminismo do que muitos sutiãs queimados -- e, mais recentemente, posts raivosos em redes sociais.
E Roberto? Bem, a partir deste disco ele vira um fenômeno. Nada menos que cinco das oito músicas do álbum são de coautoria dele. Vamos lembrar que, em Babilônia, ele teve apenas uma música com Rita.
No fim das contas, a pergunta inicial talvez esteja mal colocada. Não se trata de “o que aconteceu”, mas de com quem Rita decidiu caminhar — e para onde.
Na "era de Roberto", ela trocou a urgência crua do rock por uma ambição pop que não diminuiu sua personalidade, apenas a redirecionou. Pode ter soado como concessão para alguns, mas, na prática, foi expansão: de público, de linguagem, de possibilidades.
Se houve “perda”, ela veio acompanhada de um ganho raro — o de transformar desejo, humor e irreverência em canções que atravessam gerações. E talvez seja isso que incomode: o fato de que Rita, mesmo diferente, continuou sendo inconfundivelmente ela.
Faixa a faixa:
Chega Mais: Uma das melhores marchinhas de carnaval já feitas, um groove pop que gruda sem pedir licença. Nota 9Papai me Empresta o Carro: Talvez o único rock "puro" do disco, com aquela energia meio adolescente que Rita sempre soube explorar melhor que ninguém. Nota 9
Doce Vampiro: Nada menos que perfeição aqui. Você sente o seu sangue ser sugado de canudinho por Rita a cada nota sussurrada. Nota 10
Corre-Corre: Se fosse lançada hoje (e poderia ser), diriam que temos uma "crítica social foda". Em 1979, o mundo podia menos imediato, mas a pressa por mudanças era ainda maior. Nota 10
Mania de Você: Se você nasceu em 1980, agradeça a Rita Lee. Provavelmente seus pais ficaram com "água na boca" graças a este clássico. Nota 9
Elvira Pagã: Décadas antes dos imbecis do Red Pill, Rita já tirava sarro dos machos que têm medo de mulheres fortes e independentes. Nota 9
Maria Mole: Eu impliquei muito tempo com essa música, que claramente foi gravada para encher o disco. Mas ela tem um charme despretensioso que cresce com o tempo. Nota 8
Arrombou a Festa II: Como toda continuação, foi feita para pegar carona no sucesso do original. Não deu tão certo, mas eu gosto até mais do que a primeira. Nota 8
Ouça Rita Lee (1979) no Spotify
E se você gosta de histórias de transformação, ambição e escolhas meio tortas, tem um pouco disso também no meu livro "Os Jogadores".

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