Resenha: Rita lançando perfume e outras manias
Classificação: AAA
Ano de lançamento: 1980
Melhor música: NEM LUXO NEM LIXO
Faixas:
- Lança perfume (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Bem-me-quer (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Baila comigo (Rita Lee)
- Shangrilá (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Caso sério (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Nem luxo nem lixo (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- João Ninguém (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
- Ôrra meu (Rita Lee)
Comentário:
Este não é apenas um disco. É um acontecimento. É tão classudo que, para ouvir, todo mundo devia vestir um traje de gala -- ou no mínimo um esporte fino.
Nesta verdadeira festa de grã-finos (ou novos ricos) que é o disco Rita Lee (1980), as guitarras ainda estão presentes. Mas parecem aqueles parentes pobres que ficam deslocados, no fundo do salão.
Duvida? A única faixa em que elas aparecem à frente da banda é em Ôrra Meu, que fecha o disco, naquele momento em que boa parte dos convidados já deixou o salão. Me desculpe, mas Bem-me-quer é fofa demais para passar no teste como rock.
Coincidência ou não, Ôrra Meu é uma das duas únicas compostas exclusivamente por Rita -- a outra é Baila Comigo. As outras seis faixas trazem a mão de Roberto de Carvalho, e aí você já sabe o que acontece: melodias trabalhadas à exaustão, com cada nota no seu devido lugar como um móvel recém lustrado.
Até a cozinha do disco soa cara. O trabalho dos bateristas Picolé e Mamão mantém tudo deslizando como um carro importado recém saído da concessionária.
Mas se nada do que eu escrevi convenceu você de como disco é chique, vou lhe trazer o argumento irrefutável: Rita Lee (1980) chegou ao topo das paradas não só no Brasil como na... França! Uma verdadeira exportação do luxo made in Brazil.
É claro que tanta pompa poderia soar banal em um disco qualquer. Mas nós estamos falando da Rita Lee em seus plenos poderes. Com canções que vão do grudento ao clássico absoluto, Santa Rita de Sampa opera oito novos milagres. E mesmo que você não goste de luxo, vai chegar ao final deste disco com saúde pra gozar no final.
Faixa a faixa:
Lança perfume: Uma das poucas canções com cheiro que eu conheço. O arranjo perfeito e a voz contida de Rita criam o clima. Não dá pra ficar imune. Nota 10
Bem-me-quer: Mais um pop chiclete para a conta da fábrica de hits de Rita e Roberto. Parece feita em laboratório para tocar no rádio — e funciona irritantemente bem. Nota 8
Baila comigo: Talvez o auge da sofisticação de Rita em sua fase Roberto. Cada nota parece puxar a outra, como numa coreografia milimetricamente ensaiada. É luxo só. Nota 10
Shangrilá: Para ouvir curtindo um pôr do sol de alguma varanda, de preferência ao lado da pessoa amada. Nota 9
Caso sério: Uma das músicas mais românticas da história da música brasileira. É pra se empapuçar de ouvir. Nota 9
Nem luxo nem lixo: Se Kurt Cobain vivesse o suficiente, imagino que um dia faria uma canção como essa. Existe uma melancolia suja escondida sob o verniz elegante deste clássico absoluto do repertório da Rita. Nota 10
João Ninguém: A letra deste proto-ska engraçadinho tem um pé na crítica social. Nota 8
Ôrra meu: Como se quisesse dar um grito e se livrar do salto alto, Rita fecha o disco com o velho (e esquecido) rock and roll. Nota 8
PS: Rita lançou perfume. Eu lancei um livro. Infelizmente o meu não deixa cheiro, mas tem a mesma quantidade de gente se metendo em confusão por desejo, ego e excesso: Os Jogadores

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